domingo, 8 de novembro de 2015

Como nasce uma garota bipolar - A infância.


Em uma noite de março, no meio da caatinga, nasceu uma menina de olhos abertos para o mundo.
Até parece que eu já sabia o que iria acontecer na minha vida. Grandes olhos negros e um bebê habitual.

***

Apesar de uma gravidez indesejada, eu não havia sentido nada sobre nascer sem ser querida. Havia em mim um peso indesejado e desconhecido.
Por falta de sorte ou mesmo falta de delicadeza, senti, pela primeira vez, o peso da escola e o que é estar no lado mais fraco da situação no dia em que a professora trocou a minha tarefinha do dia das mães por um motivo de ótica: eu gostava de preto e a professora de vermelho. (Afinal, quem disse que o coração é vermelho? Hilariante.)
Mas foi aos seis anos que comecei a ver a verdadeira face humana. Na minha memória, lembro-me de duas realidades: a de estar na igreja ou na escola, onde eu convivia com crianças e adorava cantar e dançar - e a de estar em casa, onde as coisas poderiam acontecer.
Na escola eu não era o exemplo de garota sociável: eu batia nos meninos, brigava com as meninas e fazia birra com os professores. Na igreja, a mesma coisa.
Em casa, eu temia a minha mãe, tremia só de ouvir meu pai gritando comigo e vivia brigando com os meus irmãos. Ao mesmo tempo em que eu tinha avós amáveis, um quintal, era vizinha de meu tio favorito e podia contar com qualquer vizinho.
Talvez esse comportamento rude tenha uma origem um "pouco" ruim. É difícil falar sobre esse assunto, levando em consideração que ninguém de minha família têm conhecimento sobre o caso, mas vamos lá:
Era um dia de festa. Meu pai havia convidado uns amigos para beber e comemorar. Acho que era a copa de 1998 e, naquela época, as festas começavam cedo.
Eu brinquei, corri, biquei um pouco de catuaba (fiz careta), comi os petiscos. Mas no final da festa sempre sobra alguém que bebeu mais que os outros. Como meu pai nunca fez mal nem à uma borboleta quando estava embriagado, ele também acreditou que os seus amigos não fariam mal à sua família. Pois bem, era sábado de Xuxa e eu querendo assistir, deitada no sofá, como de costume. No sofá havia um amigo de meu pai e, na petulância de filha mais nova, falei para que ele se retirasse. Ele se negou, mas disse que poderia dividir o sofá comigo. Eu, na visão de uma menina superprotegida de 6 anos, não vi mal nenhum e deitei com ele. Estranhamente, esse homem, que prefiro não citar o nome, começou a passar a mão no meu joelho. Enquanto eu estranhava, ele descia mais a mão. Eu belisquei ele e disse para ele parar, caso o contrário, eu gritaria. Ele disse "caaaaalma, não é nada de mais. Estou pegando só por fora" (nesse momento, sua mão chegava ao elástico de minha calcinha).
Eu pulei do sofá sem saber que o pesadelo tinha acabado de começar. Eu não contei à ninguém, afinal, meu comportamento seria rechaçado pelos meus pais (este era meu pensamento infantil).
Alguns meses se passaram, eu fiz 7 anos e lá estava eu: a menina que gostava de assistir canais educativos e brincar com pregos e madeira. Meu corpo se desenvolvia desajeitado, mas algo se despertava em mim: os meus primeiros sinais de sexualidade. Foi quando eu decidi que tinha que beijar (só não sabia como). Quem beijaria uma menina de 7 anos? Resposta: outra menina de 7 anos. Sim, eu convenci uma prima à me beijar escondido. Fizemos isso várias vezes, imitando as novelas da época. Mas a minha curiosidade queria ir sempre além.
Certo dia, fui visitar meus avós, que moravam fora da cidade. Quem me acompanhou na volta, foi o meu "tio". Eu tinha uma vontade enorme de aprender pilotar motos e, como eu morava numa "cidade sem leis", insisti para que ele me deixasse guiar na reta e ele deixou. O detalhe é que ele gostou da ideia. Enquanto eu guiava a moto, ele segurava na minha cintura, depois sua mão ficou com o punho fechado encostando o tanque da moto. Eu pedi para parar, mas ele falava "não estou encostando em nada, só segurando a moto". Eu parei a moto e nunca mais queria falar com ele novamente, mas algo estava à se repetir.
Na semana seguinte, ele foi até à nossa casa. Não sei o motivo da visita, mas mais uma vez o azar estava de mãos dadas comigo e eu estava sozinha em casa. Meus pais tinham saído para resolver alguns problemas domésticos e meus irmãos estavam brincando na rua. Meus irmãos não entraram em casa, afinal, o que o nosso próprio "tio" poderia me fazer de mal?
Eu estava no sofá, assistindo um canal educativo quando ele chegou e perguntou sobre os meus pais. Eu disse que eles haviam saído e ele começou a se aproximar. Eu levantei do sofá e fui em direção ao quarto do meu irmão, onde havia uma rede e disse "pode ir, eu vou dormir." Na minha cabeça existia a seguinte lógica: quando o dono da casa vai dormir, a visita vai embora. Mas ele não foi embora, ele entrou atrás de mim dentro do quarto. Eu deitei na rede e disse para ele ir para casa. Ele pediu para pegar na minha barriga e, já colocando a mão, ele disse "se você não sair, eu vou gritar". Como eu tio favorito morava na casa ao lado, um grito seria ameaçador, então ele foi embora.
Nos anos seguintes. me tornei alguém hostil e temperamental.
Aos 9 anos eu não sabia mais como parar, eu tinha que ler, ver e saber o que havia de tão bom no sexo. Roubei várias revistas de meu irmão e tornei-me uma leitora assídua de contos eróticos.
No ano seguinte, eu conheci a informática e me apaixonei por programas de simulação. Minha amiga e vizinha também gostava de jogar e sempre me chamava para vê-la jogar. O computador em que minha amiga jogava, ficava no quarto do tio dela, ele era um adolescente pouco mais velho do que eu e foi nessa idade que notei a pressão que os homens sofrem para ser sexualmente ativos. No quarto dele, havia posteres e revistas de mulheres nuas que ele não nos deixava tocar. Ele sempre foi muito próximo à nós e ninguém nunca desconfiou alguma atração. E já havia me acostumado a vê-lo de cuecas, afinal, usávamos o seu quarto, Certa vez ele se exibiu para mim em plena sala de estar e eu notei meu corpo querendo responder àquilo, mas corri para fora e fui brincar.

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